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Artigo · Cinoterapia

Cinoterapia não é de graça

Mesmo quando ninguém cobra, alguém continua pagando os custos e assumindo os riscos

Patrícia Zuchi de Siqueira — Instituto Cinoterapia | SAC & SAA 14 de setembro de 2026 17 min de leitura
“Cão Golden Retriever ao lado de uma profissional na capa do artigo ‘Cinoterapia não é de graça’, sobre custos, segurança, bem-esta

Cinoterapia não é de graça apenas porque ninguém cobra pelo atendimento. Cães, condutores, profissionais e instituições continuam assumindo custos para que o serviço exista. Este artigo discute o que precisa ser financiado por trás de um programa profissional, desde seleção, formação e cuidados com os cães até gestão, revezamento, continuidade e segurança e por que, quando essa estrutura não é financiada, a conta apenas muda de lugar.

Quando alguém se dispõe a levar gratuitamente o próprio cachorro para participar de uma atividade com outras pessoas, geralmente existe uma intenção genuína de ajudar. A proposta pode parecer simples: existe uma instituição interessada, uma pessoa disponível e um cão considerado dócil por sua família. Se ninguém pretende cobrar pela presença do animal ou pelo tempo dedicado à atividade, pode surgir a impressão de que encontramos uma maneira de oferecer Cinoterapia praticamente sem custo. O problema é que preço e custo não são a mesma coisa. Alimentação, acompanhamento veterinário, higiene, prevenção sanitária, equipamentos, transporte, preparação do animal, formação do condutor, avaliação comportamental, organização, supervisão e gestão continuam existindo independentemente de haver uma cobrança pelo atendimento.

Quando não existe financiamento, esses custos não desaparecem. Eles apenas mudam de lugar. Parte pode ser absorvida pela pessoa que disponibiliza voluntariamente seu tempo, seu veículo, seus recursos e seu cão. Parte pode ser transferida para a instituição, que passa a incorporar uma atividade sem necessariamente possuir toda a estrutura necessária para sustentá-la. Há ainda custos que não aparecem em uma nota fiscal: tempo profissional, disponibilidade, preparação, desgaste de equipamentos, períodos de descanso, necessidade de substituição e tudo aquilo que precisa acontecer para que o animal possa participar de maneira adequada. E existe um custo particularmente importante, que não pode ser reduzido a dinheiro: aquele que pode ser imposto ao próprio cão quando ele é colocado em uma função sem seleção, preparação, acompanhamento ou proteção suficientes.

Essa distinção é fundamental porque a participação de um cão em Cinoterapia não pode ser compreendida simplesmente como a presença de um animal dócil em um ambiente institucional. Cães são indivíduos, possuem características, preferências, limites e necessidades próprias. Diretrizes internacionais para Serviços Assistidos por Animais reforçam que nem todos os animais são adequados a esse tipo de atuação e que mesmo um animal considerado apto pode não ser adequado a todas as populações, ambientes ou modalidades. Saúde, acompanhamento veterinário, comportamento, socialização, adaptação ao ambiente e monitoramento durante o serviço fazem parte da estrutura necessária para proteger simultaneamente animais e seres humanos.

Por isso, discutir por que a Cinoterapia possui valor financeiro não significa simplesmente defender que alguém seja remunerado para levar um cachorro até uma instituição. Significa perguntar o que precisa ser financiado para que um programa profissional possa existir, funcionar continuamente e beneficiar seres humanos sem depender do sacrifício silencioso de pessoas ou animais.

“Então vamos arrumar alguém que tenha um cachorro”

Essa percepção não aparece apenas entre pessoas interessadas em realizar trabalho voluntário. Ela pode surgir dentro das próprias instituições. Depois de conhecer um programa de Cinoterapia, um gestor ou profissional pode lembrar que possui um cão muito tranquilo em casa, pensar em um colega que tem um Golden Retriever extremamente sociável ou concluir que seria possível encontrar alguém disposto a levar seu animal gratuitamente. A atividade observada durante uma sessão pode parecer relativamente simples de reproduzir: existe um cão, um condutor, alguns materiais e profissionais desenvolvendo atividades com os participantes. A partir dessa aparência, pode surgir a ideia de que basta descobrir “como se faz”, encontrar um cachorro adequado e organizar algo semelhante internamente.

O problema é que aquilo que torna um programa tecnicamente estruturado não está concentrado no que pode ser observado durante alguns minutos de atendimento. Ver um condutor trabalhando não ensina a selecionar um cão; observar um animal aparentemente tranquilo não demonstra quais avaliações permitiram que ele chegasse àquele ambiente; conhecer algumas atividades não ensina a interpretar comportamento canino, estabelecer carga de trabalho, reconhecer alterações relevantes, organizar períodos de descanso ou determinar quando uma interação precisa ser modificada ou interrompida. Da mesma forma, reproduzir materiais, equipamentos ou exercícios não reproduz formação, experiência, protocolos, acompanhamento do binômio, gestão ou continuidade.

É justamente por isso que uma instituição não deveria começar um programa procurando “alguém que tenha um cachorro”. Primeiro precisa compreender qual serviço pretende oferecer, quais objetivos serão trabalhados, quais profissionais participarão, como os cães serão selecionados e preparados, como os condutores serão formados, como os binômios serão avaliados, quais protocolos serão utilizados, como ocorrerá o acompanhamento e de que maneira aquela estrutura será mantida ao longo do tempo. O cão não é o ponto de partida de um programa de Cinoterapia; ele integra uma estrutura que precisa existir para que sua participação faça sentido.

“Meu cachorro é muito tranquilo” não é uma avaliação comportamental

Uma pessoa pode conhecer profundamente o próprio cachorro, saber do que ele gosta, reconhecer seus hábitos, conviver com ele durante anos e possuir inúmeras experiências demonstrando que aquele animal é sociável e tranquilo. Nada disso é irrelevante. O problema aparece quando esse conhecimento cotidiano é transformado automaticamente em uma avaliação da aptidão do cão para uma função específica, exercida em contextos muito diferentes daqueles nos quais sua família normalmente o observa.

Um cão que recebe tranquilamente pessoas conhecidas dentro de casa não necessariamente responderá da mesma maneira em um hospital, escola, instituição de longa permanência ou serviço de saúde, onde existem ruídos, equipamentos, cheiros, pisos diferentes, corredores, movimentação intensa, pessoas desconhecidas e formas variadas de interação. A avaliação também não pode se limitar à ausência de histórico de agressividade. Winkle, Johnson e Mills (2020) destacam que a adequação de cães para contextos terapêuticos precisa considerar o indivíduo, seu comportamento e bem-estar, a população atendida, o ambiente e as características do trabalho que será realizado.

Existe ainda uma diferença importante entre conhecer o próprio cachorro e possuir conhecimento especializado para interpretar seu comportamento em contexto de trabalho. Um tutor pode acreditar sinceramente que o animal está tranquilo quando, na realidade, ele está apenas tolerando determinada situação. Pode interpretar permanência como vontade de continuar ou obediência como evidência suficiente de conforto. Isso não significa desvalorizar o conhecimento que o tutor possui sobre o próprio animal; significa reconhecer que vínculo, experiência cotidiana e avaliação técnica são conhecimentos diferentes e complementares.

Por isso, diante da afirmação “meu cachorro é tranquilo”, um programa profissional precisa fazer outras perguntas: como esse animal comunica desconforto? Como responde a diferentes pessoas e formas de contato? Como se comporta diante de situações inesperadas? Quais ambientes e públicos combinam com suas características? Quanto tempo consegue permanecer naquela atividade mantendo comportamento e bem-estar adequados? Como se recupera depois do trabalho? O condutor reconhece mudanças sutis e sabe quando modificar ou encerrar uma interação? As diretrizes internacionais atribuem justamente ao condutor a responsabilidade de conhecer o animal, reconhecer sinais relevantes e atuar em sua defesa quando necessário.

Essa avaliação exige conhecimento, tempo e acompanhamento. Portanto, ela também integra o custo de um programa profissional.

O condutor não está ali apenas para segurar a guia

Outro elemento frequentemente invisível quando alguém observa uma sessão é o trabalho do condutor. Sua função não se resume a transportar o animal até a instituição, fazê-lo obedecer comandos ou permanecer segurando a guia enquanto outro profissional realiza a atividade. O condutor acompanha permanentemente o cão, o participante, a interação e o ambiente, procurando identificar mudanças capazes de exigir adaptação da atividade.

Em contextos hospitalares, Barker e Gee (2021) destacam a importância de existir uma pessoa concentrada na saúde e no bem-estar do cão, atenta tanto a sinais apresentados pelo animal quanto aos elementos ambientais e às interações humanas capazes de afetá-lo. Isso é especialmente importante porque segurança é uma relação de duas vias. Normalmente pensamos primeiro na possibilidade de um cão machucar uma pessoa, mas o animal também pode ser exposto a interações inadequadas. Crianças podem puxar pelos ou cauda, pessoas podem agarrá-lo ou abraçá-lo com força, participantes podem tropeçar ou cair sobre ele e determinados ambientes apresentam equipamentos e obstáculos que precisam ser considerados.

Não é necessário transformar cada possibilidade em uma discussão sobre acidentes para compreender a consequência econômica dessa realidade: se existe uma função profissional necessária para acompanhar e proteger o binômio, essa função precisa ser formada, disponibilizada e sustentada. O critério para definir quem conduz um cão não pode ser simplesmente quem possui um animal e está livre naquela tarde. Formação, experiência, preparação e disponibilidade profissional também fazem parte da estrutura que existe por trás do atendimento.

O objetivo tampouco deveria ser produzir um cão capaz de “aguentar tudo”. Preparação não significa apagar limites individuais ou ensinar o animal a permanecer passivo independentemente da situação. Um cão altamente treinado pode executar determinado comportamento porque aprendeu a fazê-lo, mas a execução de um comando não constitui, isoladamente, evidência de conforto ou adequação àquela atividade. As recomendações internacionais sobre bem-estar em Serviços Assistidos por Animais estabelecem a necessidade de acompanhamento contínuo e interrupção quando condições físicas ou comportamentais indicam que o animal não deve permanecer em serviço.

Um programa profissional, portanto, não investe apenas em ensinar o cão a trabalhar. Investe também na capacidade humana de perceber quando ele não deveria trabalhar.

Um cão não é uma unidade de produção

Outra parte do custo costuma permanecer invisível porque não aparece diretamente durante a sessão: a necessidade de possuir capacidade operacional suficiente para respeitar os limites dos animais. Se existem muitas pessoas aguardando atendimento, isso não significa que o mesmo cão deva participar de todas as atividades simplesmente porque já está no local. A agenda institucional é uma necessidade humana; ela não pode determinar automaticamente a capacidade de trabalho de um ser vivo.

Cães diferentes apresentam características, preferências e limites diferentes. Um indivíduo pode funcionar muito bem com determinado público e não ser a melhor escolha para outro, adaptar-se melhor a um ambiente específico ou precisar de intervalos maiores. Também pode precisar ficar temporariamente afastado por uma alteração de saúde, comportamento ou simplesmente porque naquele momento não apresenta as condições necessárias para participar. A existência de critérios individuais é incompatível com a ideia de utilizar o cão como uma unidade fixa de produção de atendimentos.

Por isso, revezamento e substituição não são luxo. São componentes operacionais. Para que um programa consiga retirar um cão sem transformar imediatamente seu bem-estar em conflito com a agenda da instituição, precisa haver planejamento, outros animais preparados quando a dimensão do serviço exigir, acompanhamento dos binômios e capacidade de reorganizar escalas. Tudo isso possui custo.

Esse ponto revela uma diferença importante entre uma atividade ocasional e um serviço institucional contínuo. Uma pessoa pode comparecer voluntariamente uma vez por mês com seu animal e, caso não possa ir, simplesmente cancelar aquela participação. Um programa contratado para atender uma rede municipal, hospital, escola, clínica ou outra instituição precisa oferecer continuidade. A ausência de um cão ou de um condutor não pode necessariamente significar o desaparecimento de toda a estrutura.

O voluntário também está pagando

Mesmo quando o cão é adequado e a pessoa possui preparação suficiente, ainda existe uma questão econômica objetiva: voluntariado não significa ausência de custo. O animal precisa ser mantido durante todos os dias do mês, e não apenas durante os minutos em que aparece diante do participante. Alimentação, acompanhamento veterinário, prevenção sanitária, medicamentos quando necessários, higiene, equipamentos e transporte continuam existindo independentemente de o atendimento ser remunerado.

O condutor também disponibiliza recursos. Existe preparação antes da atividade, deslocamento, tempo de atendimento, retorno, manejo posterior do animal, reuniões, registros e formação. Combustível continua custando, manutenção do veículo continua custando e o tempo dedicado ao programa continua existindo. Quando não há pagamento, nada disso se torna gratuito; significa apenas que uma pessoa decidiu financiar uma parte do serviço com seus próprios recursos.

E o cão também participa dessa conta, ainda que não possamos traduzi-la diretamente em reais. Trabalhar exige atenção, adaptação e recuperação. Isso não significa que trabalho seja necessariamente sofrimento; significa que existe uma demanda sobre o indivíduo e que essa demanda precisa ser administrada. Descanso, acompanhamento de saúde, higiene, alimentação adequada, avaliação periódica e possibilidade real de afastamento são justamente algumas das formas pelas quais essa participação é sustentada de maneira responsável.

Para uma atividade ocasional, uma pessoa pode decidir absorver voluntariamente esses custos. Quando falamos de um programa que pretende funcionar semana após semana durante meses ou anos, entretanto, surge uma questão diferente: é razoável que um serviço institucional dependa permanentemente da disponibilidade financeira, do tempo livre e da generosidade particular de indivíduos para continuar existindo?

A boa vontade pode iniciar uma ação. Ela não deveria ser o modelo financeiro de um serviço contínuo.

O atendimento dura alguns minutos. A estrutura existe o mês inteiro.

Talvez uma das maiores dificuldades para compreender o preço da Cinoterapia esteja justamente naquilo que o contratante consegue enxergar. Ele vê o momento em que o cão chega, o condutor entra na sala e a atividade acontece. Se uma sessão possui duração determinada, pode parecer que o valor cobrado corresponde essencialmente àqueles minutos de presença. Mas a sessão é apenas a parte visível de um sistema que precisa funcionar antes e depois dela.

O cão precisa ser alimentado independentemente de haver atendimento naquele dia. Sua saúde precisa ser acompanhada. Equipamentos precisam ser adquiridos, higienizados, mantidos e substituídos. O transporte precisa acontecer. Condutores precisam permanecer preparados e disponíveis. Binômios precisam ser acompanhados. Cães podem precisar ser afastados e substituídos. Protocolos precisam ser atualizados. Documentação precisa ser organizada. Equipes precisam se comunicar. Instituições precisam receber orientações. Ocorrências precisam ser registradas. Indicadores podem precisar ser acompanhados. A agenda precisa ser organizada considerando simultaneamente participantes, profissionais, condutores e animais.

Há ainda uma quantidade significativa de trabalho que dificilmente aparece em fotografias ou vídeos de uma sessão: planejamento, reuniões, relatórios, controle sanitário, preparação de materiais, comunicação com equipes, acompanhamento dos cães, avaliação de ambientes, organização de escalas, formação e supervisão. Quanto mais contínuo e institucionalizado é o programa, maior a necessidade de que essas atividades deixem de depender da improvisação.

Portanto, quando uma instituição financia um programa profissional de Cinoterapia, ela não está pagando simplesmente para que alguém apareça com um cachorro durante determinado número de minutos. Está financiando a capacidade de manter uma estrutura disponível para que aquele atendimento possa acontecer de maneira contínua, organizada e tecnicamente sustentada.

Essa diferença é essencial para compreender por que comparar um serviço profissional com a oferta de alguém que “levaria o cachorro de graça” produz uma comparação incompleta. Em um caso, observa-se apenas o preço da presença. No outro, financia-se a estrutura necessária para produzir e manter o serviço.

O que uma instituição realmente está pagando?

O valor de um programa profissional não deveria ser entendido como aluguel de um cachorro por determinado período. O cão é parte de um binômio inserido em uma estrutura muito maior. O que está sendo financiado inclui aquilo que o participante consegue observar e, principalmente, aquilo que permanece invisível durante a interação.

Isso envolve seleção e acompanhamento dos cães; preparação e avaliação dos binômios; formação e disponibilidade dos condutores; saúde, higiene e manutenção dos animais; equipamentos; transporte; revezamento; períodos de descanso; substituições; avaliação dos ambientes; organização de agendas; protocolos; documentação; biossegurança; comunicação entre equipes; acompanhamento dos atendimentos; gestão do programa; supervisão e capacidade de manter o serviço funcionando quando surgem mudanças.

Naturalmente, o formato e os custos concretos variam conforme o programa, o público, a frequência, a distância, a estrutura existente e o modelo de contratação. Não existe uma única composição financeira aplicável a toda Cinoterapia. O princípio, entretanto, permanece: o preço não remunera apenas aquilo que acontece diante do participante. Ele sustenta as condições que tornam possível chegar até aquele momento.

É justamente nesse ponto que o financiamento adequado também se relaciona ao bem-estar animal. Quando existe estrutura, torna-se mais viável afastar um cão sem transformar sua ausência em crise operacional, realizar avaliações, manter revezamento, investir em saúde e higiene, preparar outros binômios e recusar uma atividade incompatível com determinado indivíduo. Quando toda a operação depende de uma única pessoa e de um único animal disponibilizados gratuitamente, existe menos margem para substituição, continuidade e decisões que priorizem limites individuais.

Financiar estrutura não garante automaticamente qualidade, assim como cobrar por um serviço não o torna automaticamente profissional. O valor financeiro precisa estar associado a critérios, formação, gestão e práticas verificáveis. Mas a ausência de cobrança também não transforma uma atividade em algo sem custo ou sem necessidade de estrutura.

Gratuito para o participante não significa gratuito para produzir

Existe ainda uma distinção particularmente importante quando falamos de políticas públicas, saúde, educação e assistência. Um atendimento pode ser gratuito para o participante e continuar sendo adequadamente financiado. Na verdade, inúmeros serviços públicos funcionam exatamente dessa maneira: quem recebe o serviço não realiza pagamento direto, mas existe uma estrutura econômica que permite que profissionais, equipamentos, materiais, transporte, gestão e manutenção estejam disponíveis.

Com a Cinoterapia não precisa ser diferente. Municípios, instituições, hospitais, empresas, fundos, projetos e outras formas de financiamento podem sustentar programas sem transferir o custo diretamente para o participante. Portanto, defender que a Cinoterapia possui custo não significa defender que a família ou o usuário necessariamente precise pagar pelo atendimento. Significa reconhecer que para alguém receber gratuitamente um serviço profissional, alguém precisa financiar profissionalmente sua produção.

Essa distinção é especialmente importante porque gratuidade de acesso e voluntariado de execução são coisas diferentes. Um serviço pode ser gratuito para quem o recebe e, ao mesmo tempo, possuir profissionais remunerados, cães adequadamente mantidos, gestão estruturada, protocolos e continuidade. Da mesma forma, uma atividade pode ser voluntária e ainda consumir recursos significativos de quem a oferece.

O debate correto, portanto, não é simplesmente “cobrar ou não cobrar”. É quem financia, o que está sendo financiado e se esse modelo consegue sustentar aquilo que promete oferecer.

Nem toda presença de um cão precisa ser chamada de Cinoterapia

Reconhecer esses custos também ajuda a separar situações diferentes sem diminuir o valor de nenhuma delas. Uma visita ocasional, recreativa ou de convivência com um animal pode produzir momentos agradáveis e possuir valor para as pessoas envolvidas. Existem diferentes modalidades dentro dos Serviços Assistidos por Animais, com objetivos, estruturas e níveis de exigência distintos. O problema aparece quando qualquer presença de um cão em uma instituição passa automaticamente a ser apresentada como Cinoterapia.

No modelo defendido pelo Instituto Cinoterapia, a Cinoterapia pressupõe planejamento, continuidade, finalidade definida, papéis profissionais delimitados, cães e condutores adequadamente preparados, acompanhamento dos binômios, critérios de segurança e bem-estar, registros e gestão. Isso significa que não basta reproduzir uma atividade vista em uma sessão ou colocar um cão sociável diante de participantes para reproduzir o mesmo serviço.

Uma visita eventual não precisa ser chamada de Cinoterapia para possuir valor. E reconhecer essa diferença é importante justamente porque permite que cada modalidade seja organizada de acordo com aquilo que realmente pretende entregar.

Quando chamamos de Cinoterapia um programa profissional e contínuo, precisamos aceitar também que sua estrutura possui custo.

Afinal, quem paga a conta?

No fim, a pergunta que dá nome a este artigo não é simplesmente quanto custa uma sessão. É quem está financiando tudo aquilo que precisa existir para que ela aconteça.

Quando existe um contrato ou outra fonte adequada de financiamento, esses custos podem ser planejados e distribuídos dentro de uma estrutura profissional. Quando não existe, eles não evaporam. O tutor pode pagar a alimentação, o veterinário e o combustível. O condutor pode oferecer gratuitamente seu tempo e sua formação. Uma equipe pode assumir tarefas administrativas que não estavam previstas. A instituição pode depender de disponibilidade ocasional. Determinadas necessidades podem simplesmente deixar de ser financiadas. E o próprio cão pode acabar absorvendo parte dessa economia quando faltam condições suficientes para descanso, acompanhamento, substituição ou proteção de seus limites.

Por isso, Cinoterapia não é de graça nem quando ninguém cobra por ela. A diferença é apenas se sabemos quem está pagando a conta e se consideramos aceitável a maneira como ela está sendo distribuída.

Financiar adequadamente a Cinoterapia não significa colocar preço na relação entre pessoas e cães, nem transformar o animal em produto. Significa justamente o contrário: reconhecer que, se pretendemos utilizar profissionalmente essa relação para produzir benefícios a outras pessoas, precisamos financiar as condições humanas, técnicas, operacionais e materiais necessárias para que isso aconteça sem depender de improvisação, disponibilidade ocasional ou transferência silenciosa de custos.

O participante pode receber gratuitamente. O voluntário pode decidir contribuir gratuitamente. Uma instituição pode desenvolver ações voluntárias. Nada disso elimina o valor dessas iniciativas. Mas gratuidade é uma decisão sobre quem paga; não é ausência de custo.

E talvez essa seja a forma mais simples de compreender por que existe uma estrutura profissional por trás da Cinoterapia: o que se financia não é apenas a presença de um cão. Financia-se a possibilidade de selecionar, preparar, cuidar, acompanhar, substituir, organizar e sustentar tudo aquilo que precisa existir para que aquela presença tenha propósito e continuidade. Quando essa estrutura não é financiada, a conta continua existindo. Alguém continuará pagando — e não deveria ser o cão a pagá-la silenciosamente.

Referências

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