Artigo · Cinoterapia
Por que continuamos chamando de Cinoterapia?
Serviços Assistidos por Animais é a terminologia internacional atualmente recomendada. Nós sabemos. Ainda assim, escolhemos continuar usando Cinoterapia — e existem razões para isso.

A terminologia das práticas assistidas por animais passou por sucessivas mudanças e, atualmente, Serviços Assistidos por Animais (SAA) é recomendado como termo abrangente. Este artigo discute por que a padronização científica não exige o abandono de Cinoterapia, analisando a especificidade do cão, a abrangência biológica do termo “animal”, o significado de “terapia”, a encontrabilidade e a coexistência entre SAA, SAC e Cinoterapia.
Eu gosto da palavra Cinoterapia. Existe, sim, um vínculo afetivo com ela. É uma palavra que acompanhou minha formação, minha prática profissional, meus cães, os projetos que desenvolvemos e a construção do próprio Instituto. Não vejo problema em admitir esse componente pessoal, mas seria simplificar demais a discussão afirmar que continuamos utilizando o termo apenas porque gostamos dele. O afeto existe, porém está acompanhado de razões conceituais, científicas, comunicacionais e profissionais. Depois de anos trabalhando com cães, estudando comportamento animal, relações entre espécies e a participação desses animais em diferentes contextos humanos, continuo considerando Cinoterapia uma palavra capaz de comunicar adequadamente aquilo que pretendemos comunicar.
Também conhecemos a discussão terminológica existente no campo. Em 2024, Binder et al. apresentaram uma proposta internacional de uniformização recomendando Animal-Assisted Services (AAS), que traduzimos como Serviços Assistidos por Animais (SAA), como novo termo guarda-chuva em substituição a Animal-Assisted Interventions (AAI), ou Intervenções Assistidas por Animais. A proposta foi construída a partir de um processo internacional desenvolvido ao longo de dois anos e procurou responder a um problema real: a existência de diferentes nomenclaturas, definições e classificações dificultava a comunicação entre profissionais, a delimitação de competências e a própria produção científica. A International Association of Human-Animal Interaction Organizations (IAHAIO) passou posteriormente a incentivar a adoção dessa terminologia.
Compreendemos essa necessidade e reconhecemos particularmente a importância de uma terminologia guarda-chuva para pesquisa científica, indexação bibliográfica, comparação entre estudos e comunicação internacional. O ponto em que nos afastamos de uma interpretação mais rígida dessa recomendação está em outra questão: não consideramos que reconhecer a utilidade de uma categoria abrangente exija necessariamente abandonar uma denominação específica que continua identificando aquilo que fazemos e, particularmente, a espécie animal com a qual trabalhamos.
Por que estamos falando sobre isso?
Este artigo não surgiu pelo desconhecimento da terminologia atualmente recomendada, mas justamente porque a conhecemos e, ainda assim, escolhemos continuar utilizando Cinoterapia. À medida que o Instituto ampliou sua atuação, sua produção técnica e o diálogo com profissionais de diferentes áreas, tornou-se importante explicar algumas escolhas que fazem parte da nossa identidade e da maneira como compreendemos esse campo. Entre elas está uma pergunta aparentemente simples: se hoje existe uma recomendação internacional pelo uso de Serviços Assistidos por Animais, por que continuamos falando em Cinoterapia?
A pergunta é legítima, assim como é legítimo que pesquisadores, instituições e profissionais prefiram outras nomenclaturas. O que merece discussão é o momento em que uma recomendação destinada à padronização passa a ser interpretada como se automaticamente transformasse outras expressões em incorretas, ultrapassadas ou tecnicamente indefensáveis, sem considerar a finalidade e o contexto em que cada termo é empregado. Uma recomendação terminológica pode ser importante para organizar a produção científica sem necessariamente funcionar como determinação de que toda linguagem profissional, institucional e social deva abandonar denominações específicas.
Existe ainda outra razão para este esclarecimento. A palavra Cinoterapia eventualmente é questionada pela presença do elemento “terapia”, como se isso significasse necessariamente que o cão está sendo apresentado como terapeuta, que a prática pertenceria à Psicologia ou que toda atividade realizada com cães estaria sendo classificada como tratamento clínico. Nenhuma dessas conclusões decorre necessariamente da palavra e, justamente porque pretendemos continuar utilizando Cinoterapia em nossa comunicação, consideramos mais responsável explicar publicamente o significado que atribuímos ao termo do que simplesmente presumir que todas as pessoas o interpretarão da mesma maneira.
Este texto, portanto, não pretende determinar qual terminologia todos os profissionais devem utilizar, tampouco desconsiderar o esforço internacional de organização de uma área que historicamente convive com diferentes conceitos e classificações. O objetivo é explicar por que conhecemos essa discussão, reconhecemos a utilidade de Serviços Assistidos por Animais e, mesmo assim, não encontramos razão suficiente para abandonar Cinoterapia.
O problema que a nova terminologia tenta resolver é real
A tentativa de uniformização responde a uma dificuldade verdadeira. A literatura desse campo conviveu durante décadas com diferentes nomenclaturas para práticas relacionadas, o que pode dificultar a localização de estudos, a comparação entre metodologias e a compreensão precisa daquilo que cada trabalho efetivamente realizou. Se dois pesquisadores utilizam palavras diferentes para práticas muito semelhantes, uma busca bibliográfica pode deixar de localizar parte da produção existente; se dois estudos utilizam a mesma expressão para protocolos substancialmente diferentes, a comparação dos resultados também se torna problemática. A proposta de Binder et al. (2024) identifica justamente a inconsistência terminológica como uma das dificuldades para o desenvolvimento do campo e para a definição mais clara de práticas, profissionais e qualificações.
Concordamos com esse diagnóstico, mas ele produz uma questão adicional que merece ser enfrentada: se uma das dificuldades desse campo é justamente a quantidade de terminologias acumuladas, modificadas e substituídas ao longo do tempo, até que ponto sucessivas substituições terminológicas resolvem o problema da própria instabilidade terminológica? A pergunta não pressupõe que conceitos devam permanecer imutáveis. A ciência revisa sua linguagem à medida que o conhecimento avança, e isso é desejável quando uma classificação se torna inadequada. Entretanto, cada substituição também possui consequências que não desaparecem simplesmente porque uma nova nomenclatura foi proposta.
Os artigos publicados com a terminologia anterior continuam existindo, os livros permanecem utilizando os conceitos vigentes no período em que foram escritos, documentos institucionais continuam circulando e profissionais foram formados dentro de determinadas classificações. Durante períodos de transição, pesquisadores precisam conhecer simultaneamente diferentes descritores para localizar a produção científica acumulada. Assim, uma mudança pode resolver problemas conceituais e, ao mesmo tempo, criar novos desafios de continuidade, comunicação e encontrabilidade. Reconhecer esse efeito não significa ser contrário à evolução terminológica; significa considerar também o custo científico e comunicacional da instabilidade.
As terminologias já mudaram e provavelmente continuarão mudando
A própria história recente do campo demonstra esse movimento. Expressões como Terapia Assistida por Animais, Atividade Assistida por Animais e Educação Assistida por Animais foram utilizadas para distinguir diferentes modalidades e, posteriormente, Intervenções Assistidas por Animais ganhou espaço como denominação abrangente. Materiais institucionais anteriores à nova proposta documentam essa organização e ajudam a compreender por que uma parcela considerável da produção científica ainda pode ser encontrada sob terminologias que atualmente estão sendo revistas.
A proposta mais recente procura reorganizar esse vocabulário por meio de Animal-Assisted Services. Não considero que essas mudanças sejam, por si mesmas, um problema. Áreas científicas amadurecem, conceitos são refinados e classificações precisam acompanhar mudanças na própria prática. O que considero problemático é transformar a nomenclatura mais recente em uma espécie de teste de legitimidade profissional, como se conhecer e empregar o termo atualmente recomendado fosse, por si só, evidência de maior competência técnica.
Existe uma diferença importante entre conhecer uma recomendação terminológica, compreender os motivos que levaram à sua formulação e considerar que todas as denominações anteriores ou específicas precisam desaparecer. Uma terminologia científica deve ser analisada pela sua capacidade de melhorar descrição, comunicação e produção de conhecimento, e não apenas pela circunstância de ser a formulação mais recente.
Há, inclusive, uma tensão que considero particularmente relevante: se a dificuldade de encontrar e comparar a produção científica é uma das justificativas para padronizar a terminologia, a estabilidade dessa terminologia também deveria ser considerada parte do problema. Cada mudança acrescenta novos descritores ao conjunto que pesquisadores precisam conhecer para recuperar estudos históricos. A padronização pode melhorar a encontrabilidade prospectivamente, mas sucessivas substituições também podem dificultar a continuidade retrospectivamente. As duas consequências precisam ser consideradas quando discutimos nomenclatura científica.
Um termo guarda-chuva é importante, mas ele continua sendo um guarda-chuva
Há uma parte dessa proposta com a qual concordo plenamente: um campo amplo precisa de uma denominação abrangente. Se queremos reunir práticas envolvendo diferentes espécies, profissionais, objetivos terapêuticos, educacionais e de suporte, faz sentido possuir uma categoria capaz de acomodar essa diversidade. Serviços Assistidos por Animais pode cumprir essa função justamente porque é amplo.
A existência de um termo guarda-chuva, contudo, não torna desnecessários os termos específicos existentes abaixo dele. Cinoterapia comunica imediatamente uma informação que Serviços Assistidos por Animais deliberadamente mantém em aberto: estamos falando de cães. Como cães são animais, não existe incompatibilidade lógica em compreender a Cinoterapia dentro do campo mais abrangente dos Serviços Assistidos por Animais. O primeiro termo especifica; o segundo agrupa. São funções linguísticas diferentes e perfeitamente capazes de coexistir.
O exemplo do próprio Instituto torna essa diferença bastante concreta. Nosso nome é Instituto Cinoterapia e, quando alguém o encontra, recebe imediatamente uma informação essencial sobre nossa especialidade. A pessoa ainda não sabe tudo sobre nossa metodologia, nossos programas, os profissionais envolvidos ou os diferentes contextos de atuação, mas sabe que está diante de uma instituição cuja especialidade envolve cães.
Se substituíssemos essa denominação por algo como Instituto Serviços Assistidos por Animais, a abrangência aumentaria justamente à custa da especificidade. A pessoa poderia legitimamente perguntar o que fazemos: Cinoterapia? Equoterapia? Trabalhamos com cavalos? Desenvolvemos atividades educacionais envolvendo outras espécies? Mantemos projetos com animais em ambientes de saúde? Utilizamos peixes em determinados ambientes? Trabalhamos com animais silvestres? O nome, sozinho, já não comunicaria aquilo que constitui nossa especialização.
Isso não demonstra uma deficiência de Serviços Assistidos por Animais. Demonstra que o termo está cumprindo exatamente sua função de guarda-chuva. Uma categoria criada para abranger diferentes espécies e modalidades naturalmente possui menor capacidade de identificar uma prática específica. Por isso, considero perfeitamente coerente utilizar SAA quando estamos discutindo o campo abrangente e Cinoterapia quando queremos identificar especificamente aquilo que realizamos com cães.
Existe também uma questão prática de encontrabilidade. Uma pessoa que procura especificamente por Cinoterapia possui uma intenção mais delimitada do que alguém que pesquisa genericamente Serviços Assistidos por Animais. A presença de uma denominação específica pode facilitar a associação entre aquilo que o público procura e a especialidade institucional oferecida. No contexto acadêmico, utilizar simultaneamente descritores abrangentes e específicos pode ampliar a recuperação bibliográfica; na comunicação institucional, entretanto, a especificidade possui uma função adicional de identidade e reconhecimento.
A própria palavra “animal” demonstra por que o contexto terminológico importa
Do ponto de vista biológico, existe uma questão conceitual que não pode ser ignorada nesta discussão: seres humanos também são animais. Homo sapiens pertence ao reino Animalia, à classe Mammalia e à ordem Primates. Portanto, se a expressão Serviços Assistidos por Animais fosse interpretada exclusivamente a partir do significado taxonômico da palavra “animal”, seres humanos também estariam incluídos nessa categoria.
Evidentemente, não é assim que a expressão é utilizada. Quando falamos em Serviços Assistidos por Animais, existe uma convenção terminológica segundo a qual “animais” se refere aos animais não humanos participantes desses serviços. Ninguém concluirá que uma psicoterapia realizada exclusivamente entre dois seres humanos passou a constituir um Serviço Assistido por Animais apenas porque psicólogo e paciente pertencem biologicamente ao reino Animalia. A interpretação adequada depende do contexto e da definição convencional adotada pelo campo.
A própria IAHAIO reconhece expressamente essa particularidade em seus padrões de pesquisa ao esclarecer que seres humanos também são animais mamíferos, mas que utiliza “humans” e “animals”, em vez de repetir “humans” e “non-human animals”, por uma questão de clareza. Trata-se de uma escolha linguística perfeitamente compreensível e que, ao mesmo tempo, demonstra algo importante: a terminologia técnica não é semanticamente autossuficiente. Ela também depende de definições operacionais, convenções e contexto.
Esse exemplo é relevante porque demonstra que nenhuma terminologia precisa carregar, em sua composição literal, todas as explicações necessárias para impedir qualquer interpretação possível. Se exigíssemos isso, a própria expressão Serviços Assistidos por Animais precisaria vir acompanhada permanentemente de uma ressalva taxonômica explicando que, embora seres humanos pertençam ao reino Animalia, “animais” está sendo utilizado naquele contexto para designar animais não humanos.
Não fazemos isso porque compreendemos perfeitamente a convenção. O contexto resolve a aparente ambiguidade.
O mesmo princípio precisa ser considerado quando analisamos Cinoterapia. A presença de “terapia” não significa que o cão seja o terapeuta, assim como a presença de “animais” em Serviços Assistidos por Animais não significa que qualquer integrante do reino Animalia seja o animal ao qual a expressão se refere. Nos dois casos, é necessário compreender a definição adotada dentro de determinado campo.
Há ainda uma consequência relevante dessa comparação. Se uma das críticas dirigidas à palavra Cinoterapia é que sua interpretação excessivamente literal poderia produzir uma compreensão equivocada, o mesmo rigor precisaria ser aplicado à terminologia proposta para substituí-la. Do ponto de vista biológico, “animal” é uma categoria extraordinariamente mais abrangente do que “cão”. Cinoterapia, ao menos quanto à espécie envolvida, reduz a ambiguidade porque informa imediatamente que estamos tratando de cães.
Isso não invalida Serviços Assistidos por Animais e nem pretende fazê-lo. Demonstra apenas que toda terminologia possui limites e depende de convenções. SAA possui enorme utilidade como categoria abrangente justamente porque não pretende especificar uma única espécie. Cinoterapia cumpre outra função: delimita uma prática relacionada aos cães. Não considero cientificamente necessário sacrificar a especificidade da segunda para reconhecer a utilidade classificatória da primeira.
Terapia não é sinônimo de Psicologia e muito menos de psicólogo
Uma das críticas ao termo Cinoterapia decorre da associação entre a palavra “terapia” e a Psicologia. No uso cotidiano, é muito comum alguém dizer “faço terapia” quando está se referindo especificamente à psicoterapia, mas essa utilização coloquial não transforma terapia e psicoterapia em sinônimos. Terapia é um conceito mais amplo, empregado em diferentes campos relacionados ao tratamento, à reabilitação e ao cuidado, enquanto psicoterapia corresponde a uma modalidade específica de intervenção relacionada a processos psicológicos.
A própria linguagem das profissões da saúde demonstra isso. Fisioterapia e terapia ocupacional são exemplos evidentes de que o radical não pertence exclusivamente à Psicologia e nem transforma automaticamente determinada prática em tratamento de saúde mental. Portanto, argumentar que Cinoterapia seria inadequada simplesmente porque contém “terapia” exigiria primeiro demonstrar por que essa palavra deveria ser interpretada exclusivamente como psicoterapia, algo que seu uso técnico e profissional não sustenta.
Também é importante distinguir a natureza da atividade da identidade de quem participa dela. A presença do cão em um processo terapêutico não transforma o cão em terapeuta, assim como a utilização de qualquer recurso, estratégia ou elemento dentro de uma intervenção não transfere a esse elemento a responsabilidade profissional pela intervenção. O cão não diagnostica, não prescreve, não estabelece autonomamente objetivos clínicos, não elabora planos terapêuticos e não assume responsabilidade profissional pelo participante. Essas atribuições permanecem humanas e devem respeitar as competências dos profissionais envolvidos.
A questão se torna ainda mais interessante quando observamos que a Cinoterapia pode ser aplicada em diferentes contextos humanos. Em saúde mental, podem existir objetivos relacionados a comunicação, interação, ansiedade, vínculo, comportamento ou engajamento. Na educação, o cão pode participar de estratégias destinadas a favorecer atenção, motivação, comunicação, interação social, permanência em determinada atividade ou envolvimento com o conteúdo. Na reabilitação física, a presença e a participação do animal podem ser incorporadas a tarefas destinadas a favorecer engajamento e participação do indivíduo em atividades planejadas pelo profissional responsável.
Isso não significa que todos os resultados da Cinoterapia sejam psicológicos, muito menos que todo efeito fisiológico possa ser explicado pela mente. Essa redução seria cientificamente inadequada. Processos fisiológicos, motores, cognitivos, comportamentais, emocionais e sociais interagem de maneira complexa. O que também seria inadequado é tratar motivação, emoção, expectativa, atenção, vínculo e engajamento como elementos irrelevantes para a forma como seres humanos participam de processos educacionais, terapêuticos e de reabilitação.
Na fisioterapia, por exemplo, os objetivos e mecanismos terapêuticos podem ser predominantemente motores, funcionais e fisiológicos, mas a disposição da pessoa para participar de uma tarefa, repetir um movimento, permanecer na atividade e se envolver no processo também pode ser influenciada por componentes motivacionais, cognitivos e emocionais. Se a presença do cão aumenta o interesse de uma criança em caminhar até determinado ponto, alcançar um objeto, executar determinado movimento ou permanecer em uma atividade proposta pelo fisioterapeuta, o animal não se tornou fisioterapeuta e a intervenção não se tornou psicoterapia. O objetivo profissional continua sendo estabelecido pelo fisioterapeuta, enquanto a participação do cão modifica as condições relacionais e motivacionais nas quais aquela atividade ocorre.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à educação. Um professor pode incorporar o cão a uma estratégia destinada a favorecer atenção, comunicação, interação, motivação ou permanência em determinada atividade sem transformar a aula em atendimento psicológico. Aprendizagem envolve componentes cognitivos, emocionais, sociais e comportamentais, e reconhecer essa complexidade não significa apropriar-se de competências profissionais da Psicologia.
Portanto, não precisamos escolher entre duas interpretações extremas segundo as quais ou o cão seria literalmente “o terapeuta”, ou a palavra terapia precisaria desaparecer para impedir essa interpretação. Existe uma alternativa conceitualmente muito mais simples: definir adequadamente o que entendemos por Cinoterapia e delimitar as responsabilidades dos profissionais e do condutor envolvidos em cada contexto.
Cinoterapia também comunica uma informação tecnicamente relevante: a espécie
Trabalhar com cães não significa simplesmente trabalhar com “um animal”. Espécies diferentes possuem características biológicas, comportamentais, fisiológicas, sociais e comunicacionais distintas, e essas diferenças interferem diretamente na maneira como o animal deve ser selecionado, preparado, conduzido, observado e protegido. A forma como interpretamos os sinais de um cão, organizamos sua rotina, avaliamos sua aptidão, estabelecemos sua carga de trabalho e acompanhamos sua relação com seres humanos depende inicialmente das características da espécie e, posteriormente, das particularidades daquele indivíduo.
Dizer Cinoterapia elimina imediatamente uma parte dessa ambiguidade. A palavra não descreve um protocolo científico inteiro e nem deveria fazê-lo. Ainda precisaremos informar quem participou, quais eram os objetivos, quais profissionais estavam envolvidos, como o cão foi selecionado, como ocorreu a atividade, qual população foi atendida e quais resultados foram avaliados. Nenhum termo isolado consegue carregar todas essas informações. Entretanto, Cinoterapia já delimita uma variável importante: a espécie envolvida é o cão.
Por essa razão, não considero que a utilização de um termo específico seja necessariamente contrária à preocupação científica com precisão. Dependendo do contexto, especificar a espécie acrescenta informação em vez de retirá-la.
Uma palavra não concede competência profissional
Existe um problema muito maior do que decidir qual nomenclatura aparecerá no título de um serviço: determinar quem pode fazer o quê. Podemos substituir Cinoterapia por Serviços Assistidos por Cães, Serviços Assistidos por Animais ou qualquer outra denominação que venha a ser proposta no futuro, mas nenhuma dessas palavras transformará automaticamente alguém em profissional qualificado.
Chamar uma prática de Cinoterapia não transforma o condutor em psicólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional ou professor. Da mesma maneira, possuir uma dessas formações não transforma automaticamente alguém em profissional capacitado para selecionar, preparar, interpretar e conduzir cães. Existem conhecimentos, responsabilidades e competências diferentes que precisam funcionar de maneira integrada quando a natureza do serviço exige atuação interdisciplinar.
Tornar mais claras as funções e qualificações dos diferentes prestadores é justamente uma das preocupações presentes na proposta internacional de uniformização. Nesse ponto, existe convergência: é necessário definir responsabilidades, competências e limites. A divergência está em considerar que essa organização dependeria do desaparecimento de uma denominação específica. Para nós, é muito mais relevante estabelecer quem faz o quê, com qual formação, dentro de quais limites, sob quais critérios e assumindo quais responsabilidades.
Nem todo mundo concordou que mudar novamente fosse a melhor solução
A nova terminologia também não produziu unanimidade entre organizações que atuam nesse campo. Pet Partners e a Association of Animal-Assisted Intervention Professionals (AAAIP) manifestaram posição favorável à manutenção de terminologias estabelecidas, argumentando, entre outros aspectos, que mudanças podem produzir confusão e comprometer a continuidade de uma linguagem já presente em materiais, políticas, padrões e comunicação pública. Essa divergência é particularmente interessante porque demonstra que questionar uma nova padronização não significa desconhecer a literatura nem rejeitar a ciência; existe uma discussão legítima sobre quanto se ganha e quanto se perde quando uma terminologia consolidada é novamente substituída.
Esse debate dialoga diretamente com o problema da encontrabilidade. Se a padronização pretende facilitar a localização e comparação da produção científica, sucessivas mudanças exigem que pesquisadores continuem procurando os termos anteriores para recuperar a literatura histórica. Existe, portanto, uma tensão legítima entre padronização e estabilidade: a primeira pode melhorar a comunicação entre estudos contemporâneos, enquanto a ausência da segunda pode fragmentar a recuperação daquilo que já foi produzido.
Não precisamos transformar essa divergência em uma disputa para determinar quem possui a palavra absolutamente correta. Podemos reconhecer que diferentes contextos possuem necessidades distintas. Pesquisadores precisam de descritores suficientemente padronizados para localizar e comparar estudos; organizações precisam comunicar seus serviços; profissionais precisam explicar aquilo que fazem; e o público precisa compreender aquilo que está sendo oferecido. Essas necessidades se relacionam, mas não são necessariamente idênticas.
Então por que também utilizamos Serviços Assistidos por Animais?
Utilizamos Serviços Assistidos por Animais porque é uma terminologia útil, reconhecida internacionalmente e importante para o diálogo científico. A expressão permite discutir um campo mais amplo do que a Cinoterapia, facilita a comunicação com pesquisadores e profissionais que adotam essa nomenclatura e aumenta a possibilidade de que nossos conteúdos sejam encontrados por pessoas que pesquisam o assunto utilizando os descritores atualmente recomendados.
Também utilizamos Serviços Assistidos por Cães (SAC) quando precisamos falar de maneira abrangente sobre serviços especificamente relacionados aos cães. Não tratamos, porém, essas expressões como se a existência de uma obrigasse ao desaparecimento das outras. Serviços Assistidos por Animais pode funcionar como termo guarda-chuva; Serviços Assistidos por Cães pode delimitar um conjunto de práticas pela espécie; e Cinoterapia pode continuar identificando uma prática específica construída em torno da participação de cães.
Em pesquisa acadêmica, devem ser utilizados descritores, definições e detalhamento metodológico suficientes para que o trabalho seja encontrado, compreendido e comparado. Na comunicação sobre o campo abrangente, SAA possui evidente utilidade. Quando precisamos tratar genericamente de serviços envolvendo cães, SAC também possui sua função. A coexistência dessas expressões não me parece uma deficiência terminológica; desde que cada uma seja definida e utilizada de maneira coerente, pode representar diferentes níveis de especificidade.
Existe também uma questão de identidade e encontrabilidade
O exemplo do próprio Instituto demonstra por que essa especificidade importa fora do ambiente acadêmico. Nosso nome é Instituto Cinoterapia e uma pessoa que encontra essa denominação recebe imediatamente uma informação sobre nossa especialização. Ela ainda não conhece toda a metodologia, os programas desenvolvidos ou os profissionais envolvidos, mas sabe que está diante de uma instituição cuja atuação está diretamente relacionada aos cães.
Se adotássemos uma denominação como Instituto Serviços Assistidos por Animais, precisaríamos imediatamente explicar aquilo que o próprio nome deixou em aberto. Trabalhamos com cães? Cavalos? Diferentes espécies? Desenvolvemos equoterapia? Trabalhamos com outros animais em ambientes educacionais ou de saúde? A expressão não estaria errada por permitir essas interpretações; estaria apenas cumprindo sua função de categoria ampla, e essa amplitude não corresponde necessariamente à função comunicacional que esperamos do nome de uma instituição especializada.
Existe, portanto, uma diferença entre ser encontrável dentro de um campo científico abrangente e ser identificável por uma especialidade. Precisamos das duas coisas. Por isso, Serviços Assistidos por Animais aparece em nossa comunicação, em nossos descritores e em nossa produção técnica, enquanto Cinoterapia permanece no centro da nossa identidade institucional. Não considero que uma escolha precise eliminar a outra.
Existe também afeto e não vejo problema em admitir isso
Além dos argumentos técnicos, científicos e comunicacionais apresentados até aqui, existe uma dimensão pessoal que seria artificial esconder: eu gosto da palavra Cinoterapia. Tenho apego afetivo a ela porque acompanhou minha trajetória, meus estudos, meus cães, os projetos que desenvolvemos, as pessoas que atendemos e a construção de uma instituição que carrega essa palavra no próprio nome.
Gostar de uma palavra não seria justificativa suficiente para continuar utilizando-a se ela necessariamente induzisse a erro, provocasse risco ou fosse incompatível com uma definição técnica indispensável. Entretanto, não é isso que encontramos nesta discussão. Encontramos uma denominação específica para uma prática com cães, um termo guarda-chuva internacional importante para organizar um campo muito maior, uma história marcada por sucessivas reorganizações terminológicas e diferentes necessidades de linguagem dependendo de estarmos falando com pesquisadores, profissionais, instituições ou com a sociedade.
Nesse contexto, meu vínculo com a palavra não substitui os argumentos técnicos apresentados anteriormente, mas também não precisa ser escondido para que o posicionamento pareça mais científico. Identidade profissional e linguagem também possuem história, e reconhecer essa dimensão não impede que nossas escolhas terminológicas sejam analisadas criticamente.
Padronização é importante. Estabilidade também.
Talvez essa seja a principal reflexão que queremos deixar. Quando uma área possui terminologias demais, localizar pesquisas, comparar metodologias e estabelecer parâmetros comuns realmente se torna mais difícil, e esse é um problema legítimo que justifica esforços de uniformização. Ao mesmo tempo, existe um paradoxo quando tentamos solucionar a instabilidade terminológica por meio de sucessivas substituições terminológicas, porque cada nova nomenclatura precisa conviver durante anos com as anteriores.
Pesquisadores passam a precisar de diferentes descritores, documentos precisam explicar equivalências, mecanismos de busca precisam indexar expressões distintas, instituições atualizam materiais e profissionais precisam explicar ao público como o campo decidiu se chamar naquele momento. Por isso, talvez a pergunta relevante não seja simplesmente “qual é o termo mais atual?”, mas também “qual problema estamos resolvendo ao modificá-lo, quais benefícios concretos essa mudança produz e quais novos problemas podem surgir em consequência dela?”.
A ciência precisa de padronização porque conhecimento acumulado depende da possibilidade de comunicação entre pesquisadores. Ao mesmo tempo, também se beneficia de continuidade e estabilidade suficientes para que a produção anterior permaneça encontrável e compreensível. Uma categoria guarda-chuva pode contribuir muito para esse processo sem necessariamente eliminar terminologias específicas que continuam comunicando adequadamente aquilo que pretendem identificar.
Por isso, para nós, continua sendo Cinoterapia
Não precisamos apagar a palavra Cinoterapia para tornar a área mais científica. Precisamos definir com precisão aquilo que queremos dizer quando a utilizamos e demonstrar, na prática, os critérios técnicos que sustentam aquilo que fazemos. Conhecemos a recomendação internacional atual, compreendemos o problema que ela pretende resolver, reconhecemos a importância de uma categoria abrangente e utilizamos Serviços Assistidos por Animais quando essa expressão é adequada. Também utilizamos Serviços Assistidos por Cães quando precisamos delimitar um conjunto mais amplo de serviços especificamente relacionados aos cães.
Cinoterapia, entretanto, continua cumprindo uma função que valorizamos. A palavra identifica o cão, comunica nossa especialidade, contribui para nossa identidade e encontrabilidade e possui história dentro desse campo e da nossa própria trajetória. A presença de “terapia” não transforma o cão em terapeuta, não transforma o condutor em psicólogo e não converte automaticamente uma atividade educacional em psicoterapia. Terapia possui significado mais amplo do que psicoterapia, e a participação do cão pode contribuir para processos humanos envolvendo motivação, atenção, comunicação, interação, comportamento, engajamento e outras dimensões sem que o animal assuma a profissão ou a responsabilidade técnica de ninguém.
O cão permanece sendo cão, o profissional humano permanece responsável pelas atribuições de sua profissão, o condutor permanece responsável pelas competências relacionadas à condução, à interpretação e à proteção do animal, e a equipe permanece responsável pelos objetivos, pela segurança, pelo bem-estar e pelos limites do programa desenvolvido. Essa distribuição de responsabilidades não depende de abandonar uma palavra, mas de definir adequadamente a prática que ela representa.
Não considero necessário escolher entre respeitar a literatura internacional e preservar uma terminologia específica. Podemos utilizar SAA para dialogar com o campo abrangente, SAC quando precisamos falar especificamente dos serviços relacionados aos cães e Cinoterapia quando estamos tratando da prática que identificamos por esse nome. Se, daqui a alguns anos, esse campo voltar a revisar sua terminologia, estudaremos novamente a proposta, suas razões, seus benefícios e suas limitações, porque é assim que uma área científica deve funcionar: não apenas adotando convenções, mas também sendo capaz de examiná-las criticamente.
Por isso, conhecemos a terminologia Serviços Assistidos por Animais, compreendemos por que ela foi proposta e reconhecemos sua utilidade. Nada disso, até o momento, nos apresentou uma razão suficiente para abandonar Cinoterapia. Existe uma posição técnica, uma história profissional e uma identidade institucional por trás dessa escolha, além de uma dimensão afetiva que não precisamos negar.
Eu gosto da palavra Cinoterapia, sei por que a utilizo e continuo satisfeita em utilizá-la.
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