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Artigo · Cinoterapia

Quem ensina Cinoterapia precisa ter experiência em Cinoterapia

Por que formação acadêmica, certificados e experiência geral com cães não substituem a prática específica de quem assume a responsabilidade de formar outros profissionais

Patrícia Zuchi de Siqueira — Instituto de Cinoterapia e Serviços Assistidos por Animais 13 de setembro de 2026 15 min de leitura
Profissional de Cinoterapia com Golden Retriever durante formação, representando experiência prática, responsabilidade, segurança e qualificação de quem ensina Cinoterapia.

Com o crescimento da Cinoterapia, cresce também a responsabilidade de quem assume a formação de novos profissionais. Este artigo discute por que formação acadêmica, certificados e experiência geral com cães não substituem a experiência prática específica, e propõe critérios para avaliar a competência de formadores considerando atuação sistemática, diversidade de participantes e cães, prática supervisionada, interdisciplinaridade, responsabilidade e experiência compatível com o conteúdo ensinado.

Com o crescimento da Cinoterapia no Brasil, cresce também a oferta de cursos, capacitações, palestras e formações destinadas a profissionais interessados em atuar com cães em contextos de saúde, educação e assistência. Esse movimento é importante para o desenvolvimento da área, mas também amplia a responsabilidade de quem assume a função de ensinar uma prática que envolve simultaneamente pessoas, animais, equipes e instituições.

Nesse cenário, uma pergunta precisa acompanhar a expansão da formação profissional: qual experiência sustenta aquilo que está sendo ensinado? Formação acadêmica, estudo científico, conhecimento sobre cães, certificações e participação em atividades assistidas por animais podem compor uma trajetória relevante, mas não representam necessariamente a mesma competência. Estudar uma prática, participar dela, executá-la sistematicamente, supervisioná-la e estar preparado para ensiná-la correspondem a níveis diferentes de experiência e responsabilidade.

Essa distinção se torna especialmente importante quando o conhecimento transmitido será posteriormente aplicado em situações reais, envolvendo participantes com diferentes necessidades, cães com características individuais, equipes interdisciplinares e instituições que precisam administrar segurança, bem-estar animal, objetivos profissionais e responsabilidades.

Formação acadêmica e experiência prática não são a mesma coisa

A Cinoterapia é interdisciplinar e pode reunir profissionais de diferentes áreas. Cada formação acrescenta competências específicas, mas o conhecimento de uma parte não deve ser apresentado como domínio automático do conjunto. Conhecer saúde animal não significa, por si só, saber estruturar uma sessão; conhecer profundamente uma condição humana não significa saber inserir um cão naquela intervenção; saber treinar cães para outras funções também não significa possuir experiência específica na preparação de cães para Serviços Assistidos por Animais.

Entre os conhecimentos fundamentais para compreender essa prática estão aqueles relacionados ao comportamento animal, aprendizagem, comunicação, adaptação ao ambiente e relações entre espécies. Nesse campo, a formação em Ciências Biológicas pode oferecer uma base particularmente relevante, especialmente quando associada à experiência prática com comportamento animal e interação interespecífica. No caso da licenciatura, soma-se ainda uma formação voltada ao processo de ensino e aprendizagem. Isso torna o profissional potencialmente qualificado para contribuir com conteúdos relacionados a essas áreas, desde que sua competência não seja presumida apenas pelo diploma, mas acompanhada de conhecimento atualizado e experiência compatível com aquilo que pretende ensinar.

O mesmo princípio precisa ser aplicado às demais profissões. A formação em Medicina Veterinária oferece competências fundamentais relacionadas à saúde, clínica, prevenção, sanidade e bem-estar dos animais e pode contribuir de maneira indispensável nesses conteúdos. Entretanto, possuir essa graduação não demonstra automaticamente experiência aprofundada em comportamento animal, relações interespecíficas ou preparação e condução de cães em Cinoterapia. Da mesma forma, ser biólogo não demonstra automaticamente experiência prática em comportamento animal ou Cinoterapia. A graduação indica uma base de formação; a experiência precisa ser demonstrada.

Essa diferença é particularmente importante no estudo do comportamento. Conhecimento teórico permite compreender conceitos, interpretar evidências científicas e construir fundamentos para a atuação, mas não reproduz integralmente a experiência de observar animais reais em diferentes situações, reconhecer alterações sutis de comportamento, acompanhar respostas ao ambiente e tomar decisões diante de situações dinâmicas. Quem ensina comportamento aplicado à Cinoterapia precisa ser capaz de relacionar conhecimento científico à observação prática e à tomada de decisão, especialmente porque erros de interpretação podem afetar tanto a segurança das pessoas quanto o bem-estar dos cães.

Isso não significa que situações de agressão devam fazer parte da rotina de Cinoterapia — ao contrário, seleção, preparação, acompanhamento e gestão de riscos devem trabalhar justamente para prevenir situações incompatíveis com uma atuação segura. Entretanto, quem assume responsabilidade sobre comportamento e segurança precisa possuir repertório suficiente para reconhecer sinais de desconforto, estresse, medo, excitação ou outras alterações relevantes antes que uma situação evolua. A experiência prática, nesse sentido, não substitui conhecimento científico; ela permite aplicá-lo diante de um animal real, em um ambiente real e em tempo real.

A interdisciplinaridade também exige distinguir funções. Um profissional da saúde, educação ou assistência pode desenvolver objetivos próprios de sua área em um programa de Cinoterapia sem assumir a condução do cão, trabalhando em conjunto com o condutor responsável pelo animal. Da mesma forma, experiência na preparação e condução de cães não transfere ao condutor competências específicas de outras profissões. A qualidade do trabalho interdisciplinar depende justamente do reconhecimento dessas fronteiras e da integração entre conhecimentos diferentes, em vez da suposição de que uma única formação profissional abrange todas as dimensões da prática.

Por isso, uma formação consistente em Cinoterapia não deveria ser construída a partir da ideia de que determinada graduação, isoladamente, torna alguém especialista em todo o campo. Ela precisa reunir competências complementares. Profissionais com formação pertinente podem ensinar conhecimentos específicos de suas áreas; profissionais com formação e experiência demonstrável em comportamento animal podem assumir conteúdos relacionados a comportamento e relações interespecíficas; e profissionais que ensinam a execução da própria Cinoterapia precisam, além dos fundamentos científicos necessários, possuir experiência demonstrável nessa prática.

Essa última distinção é fundamental. Um profissional pode possuir sólida formação acadêmica em Biologia, Medicina Veterinária, Psicologia, Educação ou outra área relacionada e nunca ter participado sistematicamente de uma sessão de Cinoterapia. Nesse caso, sua competência para ensinar conhecimentos pertencentes à sua especialidade continua existindo, mas ela não deve ser confundida com experiência para ensinar a execução de uma prática que nunca exerceu. Uma profissão pode oferecer fundamentos para compreender a Cinoterapia. Nenhum diploma, entretanto, cria retrospectivamente a experiência de ter praticado Cinoterapia.

Isso também significa que formar um profissional para integrar a Cinoterapia à sua própria área de atuação não é necessariamente o mesmo que formá-lo para selecionar, preparar ou conduzir cães. São responsabilidades diferentes e, consequentemente, exigem conteúdos, experiências práticas e critérios de avaliação compatíveis com a função que será exercida.

As diretrizes internacionais da IAHAIO para educação e formação em Intervenções Assistidas por Animais estabelecem padrões mínimos para programas formativos e reforçam a importância de qualificação adequada, conhecimento especializado e experiência prática compatível com o conteúdo ensinado (IAHAIO, 2022). Esse princípio oferece uma base importante para a discussão: a qualificação de quem ensina precisa corresponder tanto ao conhecimento transmitido quanto à responsabilidade profissional que esse conhecimento permitirá assumir.

Experiência pontual e prática sistemática representam níveis diferentes de experiência

Atividades voluntárias, observações e participações pontuais podem fazer parte de uma trajetória formativa valiosa, mas não deveriam ser automaticamente convertidas em qualificação para formar outras pessoas. A prática sistemática expõe o profissional a situações que dificilmente aparecem em demonstrações ou experiências isoladas: participantes diferentes, mudanças de ambiente, dificuldades inesperadas, respostas distintas dos cães, necessidade de adaptar objetivos, intercorrências e decisões que exigem revisão do planejamento.

O ponto central não é se a experiência foi remunerada ou voluntária, mas sua profundidade, frequência, duração, diversidade e responsabilidade. Uma pessoa pode desenvolver experiência consistente em um projeto voluntário de longa duração, assim como pode apresentar experiência limitada mesmo atuando profissionalmente por vários anos de forma esporádica. Por isso, o simples tempo transcorrido desde o início da atuação também é um indicador insuficiente quando analisado isoladamente.

Da mesma forma, contabilizar apenas o número de atendimentos não explica necessariamente o tipo de experiência adquirida. Participar de muitas atividades semelhantes, com pouca responsabilidade sobre planejamento ou tomada de decisão, representa uma trajetória diferente daquela em que o profissional acompanha continuamente participantes, cães e equipes, participa das decisões, enfrenta situações variadas e precisa avaliar os resultados de suas próprias escolhas.

Experiência com participantes é apenas parte da questão

Quando falamos em experiência prática em Cinoterapia, é comum pensar apenas no número de sessões realizadas. Entretanto, quem ensina seleção, preparação, condução ou acompanhamento de cães precisa demonstrar experiência também com os animais. Conhecer profundamente o próprio cão é valioso, mas trabalhar somente com um ou dois indivíduos pode limitar a diversidade de respostas, temperamentos, formas de aprendizagem e desafios encontrados.

Cada cão possui características individuais de comunicação, motivação, sensibilidade, recuperação, tolerância, maturidade e resposta ao ambiente. Winkle, Johnson e Mills (2020), ao discutirem bem-estar, comportamento, seleção, avaliação e adequação de cães para terapia assistida por animais, reforçam a importância de considerar individualmente o animal, seu comportamento, seu bem-estar e sua adequação ao trabalho. Isso significa que uma experiência particular não deve ser transformada automaticamente em regra universal para outros cães.

A experiência necessária também depende daquilo que se pretende ensinar. Quem ministra conteúdos sobre participação interdisciplinar de profissionais da saúde ou educação não precisa necessariamente apresentar a mesma trajetória de quem ensina seleção de cães, formação de binômios ou condução das interações. Entretanto, quando o conteúdo envolve diretamente comportamento, preparação, seleção, manejo ou condução do animal, a experiência prática com cães em contextos compatíveis com essa função passa a ser parte essencial da competência do formador.

Quantidade de cães importa, mas não pode ser o único critério

Estabelecer que alguém precisa ter preparado cinco, dez ou vinte cães para poder ensinar produziria uma aparência de objetividade que não necessariamente mede competência. Uma pessoa pode ter tido contato superficial com muitos animais, enquanto outra acompanhou um número menor de cães durante seleção, preparação, inserção no trabalho, acompanhamento, ajustes e aposentadoria.

Por isso, a experiência precisa ser analisada quantitativa e qualitativamente. É relevante perguntar quantos cães foram acompanhados, mas também durante quanto tempo, em quais etapas, para quais funções, com qual grau de responsabilidade e diante de que diversidade de situações. Também importa compreender se o profissional apenas participou de determinados processos ou se efetivamente tomou decisões, acompanhou suas consequências e precisou adaptar sua atuação diante das respostas dos animais e dos contextos de trabalho.

O objetivo não é criar uma competição numérica nem estabelecer um número arbitrário como sinônimo de competência, mas impedir que uma experiência muito limitada seja apresentada como conhecimento universal. Critérios quantitativos podem contribuir para demonstrar trajetória, desde que interpretados juntamente com a qualidade, diversidade e profundidade dessa experiência.

Experiência geral com treinamento canino não substitui experiência específica em Cinoterapia

Experiência em treinamento canino é uma base importante e pode oferecer conhecimentos altamente relevantes para o trabalho. Entretanto, cães preparados para esporte, obediência, trabalho operacional, assistência individual ou Serviços Assistidos por Animais enfrentam contextos, demandas e objetivos diferentes. Algumas competências são transferíveis; outras precisam ser desenvolvidas especificamente para a função que o cão exercerá.

Na Cinoterapia, o cão pode interagir com pessoas que apresentam diferentes características motoras, sensoriais, cognitivas, emocionais e comportamentais. O profissional precisa preparar e acompanhar o animal considerando esse ambiente, os objetivos da intervenção e a imprevisibilidade possível das interações. Isso exige mais do que executar comportamentos previamente treinados: exige interpretar continuamente o animal, reconhecer alterações relevantes em sua resposta, avaliar sua adequação ao contexto e decidir quando adaptar, interromper ou modificar uma atividade.

A revisão sistemática de Santaniello et al. (2021) analisou protocolos relacionados à participação de cães em terapia assistida por animais e identificou heterogeneidade e limitações na padronização de aspectos como seleção, treinamento e protocolos relacionados à participação dos animais. Essa ausência de uniformidade torna ainda mais importante que quem ensina diferencie experiência geral com cães de experiência específica na função. Reconhecer essa diferença não diminui o valor da experiência prévia em treinamento; significa compreender quais competências podem ser aproveitadas e quais precisam ser desenvolvidas especificamente para a Cinoterapia.

Ensinar produz um efeito multiplicador

Quando alguém adota uma prática inadequada dentro do próprio serviço, o problema inicialmente se concentra naquele ambiente. Quando essa mesma pessoa começa a formar profissionais, suas decisões e interpretações podem ser reproduzidas em diferentes instituições, cidades, participantes e cães. Uma turma não representa apenas alunos que receberam certificados; representa profissionais que poderão aplicar aquele conhecimento por anos e, eventualmente, formar outras pessoas.

Esse efeito multiplicador aumenta a responsabilidade de quem ensina. Uma orientação inadequada sobre leitura do comportamento do cão, limites de interação, organização do serviço, gestão de riscos ou tomada de decisão pode deixar de ser uma falha individual e se transformar em prática reproduzida por diferentes profissionais. Da mesma forma, uma formação tecnicamente consistente pode multiplicar boas decisões e contribuir para o desenvolvimento de padrões profissionais mais seguros.

Por isso, a responsabilidade de quem forma deveria ser maior do que a de quem acabou de concluir sua própria capacitação. O certificado comprova participação ou conclusão de determinado processo formativo, mas não demonstra automaticamente experiência profissional suficiente para ensinar a prática. Trevathan-Minnis, Johnson e Howie (2021), ao discutirem competências profissionais transdisciplinares e ética nas terapias e intervenções assistidas por animais, reforçam a necessidade de competências específicas e de parâmetros profissionais adequados às responsabilidades assumidas.

Experiência precisa ser demonstrável

Se experiência é um requisito relevante, ela não pode existir apenas como autodeclaração. Uma estrutura futura de qualificação pode considerar histórico de atuação, participação documentada em programas, prática supervisionada, registros profissionais, responsabilidades exercidas, natureza das intervenções, diversidade de cães acompanhados e continuidade dessa experiência.

A comprovação também precisa ser proporcional à responsabilidade assumida. Os critérios exigidos de quem ministra um conteúdo introdutório não precisam ser idênticos aos aplicáveis a quem forma condutores, avalia binômios, supervisiona equipes, estrutura programas ou capacita novos formadores. Quanto maior a influência das decisões ensinadas sobre a atuação profissional, a segurança dos participantes e o bem-estar dos cães, maior deve ser a capacidade de demonstrar experiência compatível com essa responsabilidade.

Isso não significa fechar a área para iniciantes. O caminho mais coerente é estabelecer progressão: formação teórica, prática supervisionada, integração em equipe, aquisição de experiência, autonomia crescente e, posteriormente, responsabilidades de coordenação, supervisão ou docência. Estar aprendendo uma atividade e estar preparado para ensiná-la são momentos diferentes da trajetória profissional.

Uma estrutura desse tipo também permite que novos profissionais ingressem na área sem que precisem apresentar experiência que ainda não tiveram oportunidade de construir. O problema não está em começar; está em transformar o início da trajetória em autoridade para formar outras pessoas antes que exista experiência suficiente para sustentar essa responsabilidade.

Nem todo professor de um curso precisa ser especialista em tudo

Uma formação interdisciplinar pode se beneficiar de diferentes especialistas. Um médico-veterinário pode ministrar conteúdos clínicos e sanitários dentro de suas competências; profissionais da saúde ou educação podem abordar conteúdos específicos de suas áreas; especialistas em comportamento podem contribuir em temas próprios. Não seria razoável exigir de cada convidado a mesma experiência em condução de sessões quando ele não está ensinando essa prática.

Da mesma forma, um profissional pode possuir conhecimento altamente especializado sobre determinado tema relevante para a Cinoterapia sem ser responsável por formar condutores ou ensinar a execução integral do serviço. A composição de uma equipe docente interdisciplinar permite justamente reunir competências diferentes sem exigir que uma única pessoa reivindique domínio sobre todas elas.

A exigência de experiência específica em Cinoterapia se torna especialmente importante para quem ensina a própria execução da Cinoterapia: seleção e preparação dos cães para essa função, condução das interações, planejamento do serviço, relação humano-animal, gestão de riscos, supervisão prática e tomada de decisão no contexto real. O critério precisa acompanhar aquilo que a pessoa afirma estar habilitada a ensinar.

Formação específica não pode signific apenas possuir outro certificado

O Projeto de Lei nº 682/2021, que propõe disciplinar a prática da Cinoterapia no Brasil e ainda se encontra em tramitação na Câmara dos Deputados, utiliza a expressão “comprovada formação específica” ao tratar do cinotécnico responsável pelo treinamento e pela seleção comportamental dos animais. O reconhecimento da necessidade de formação específica é relevante, mas abre uma questão que também precisa fazer parte do debate regulatório: quem estará qualificado para oferecer essa formação e quais critérios demonstrarão a competência do formador?

Se uma futura regulamentação exigir apenas certificados sem observar a qualidade da formação, a experiência de quem ensina e as competências efetivamente desenvolvidas, existe o risco de criar uma cadeia documental em que uma pessoa conclui um curso e rapidamente passa a emitir novos certificados. Nesse cenário, o documento poderia circular mais rapidamente do que a experiência profissional necessária para sustentar aquilo que ele pretende representar.

Formação específica precisa representar desenvolvimento real de competência, prática e avaliação, e não apenas a existência de um documento. Isso envolve discutir não somente carga horária ou conteúdo programático, mas também quem ensina, quais experiências práticas são proporcionadas, como as competências são avaliadas e quais responsabilidades o certificado efetivamente pretende reconhecer.

A regulamentação da área, portanto, não deveria olhar apenas para qual certificado o profissional possui, mas também para a estrutura que sustenta essa formação. Caso contrário, existe o risco de formalizar documentalmente uma competência que não foi suficientemente desenvolvida na prática.

A profissionalização começa pela qualidade de quem ensina

Discutir critérios para formadores não significa determinar quem pode falar sobre Cinoterapia ou impedir novos profissionais de contribuir. Pesquisa, estudo, debate e produção de conhecimento devem permanecer abertos, inclusive porque uma área em desenvolvimento depende da contribuição de diferentes campos profissionais. A responsabilidade muda, entretanto, quando alguém assume formalmente a tarefa de preparar outra pessoa para executar, conduzir, supervisionar ou ensinar uma prática profissional.

Quem ensina Cinoterapia precisa conhecer Cinoterapia, e esse conhecimento não pode ser construído apenas por leitura, formação acadêmica ou certificação. Precisa incluir contato consistente com a realidade da prática: pessoas, cães, equipes, ambientes, planejamento, dificuldades, decisões, adaptações e limites. Isso não significa exigir que todos os docentes tenham a mesma trajetória, mas que a experiência demonstrada seja compatível com aquilo que cada profissional se propõe a ensinar.

Estabelecer esse princípio não fecha a área para novos profissionais. Ao contrário, ajuda a construir caminhos mais claros de progressão entre formação, prática supervisionada, experiência profissional, autonomia, supervisão e docência. Também permite reconhecer que uma área interdisciplinar pode ter diferentes especialistas contribuindo para a formação sem transformar automaticamente cada um deles em especialista em todas as dimensões da Cinoterapia.

Se a Cinoterapia pretende avançar como campo tecnicamente estruturado, a qualidade de sua formação não pode ser medida apenas pela quantidade de certificados emitidos, pelo número de cursos realizados ou pelo tempo transcorrido desde uma primeira capacitação. Precisa ser avaliada também pela competência que esses processos efetivamente desenvolvem e pela experiência que sustenta aquilo que será posteriormente transmitido a outros profissionais.

Afinal, quando alguém ensina uma prática, sua experiência deixa de influenciar apenas o próprio trabalho. Ela passa a influenciar também as decisões das pessoas que aprenderão com ela, os programas em que essas pessoas atuarão e, consequentemente, os participantes, os cães e as instituições que estarão envolvidos nesse processo. Profissionalizar a Cinoterapia também significa profissionalizar a responsabilidade de quem a ensina.

Referências

BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 682, de 2021. Dispõe sobre a prática de cinoterapia, modalidade de terapia assistida por cães. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2021. Projeto de Lei nº 682/2021 — Câmara dos Deputados. Acesso em: 13 set. 2026. IAHAIO — INTERNATIONAL ASSOCIATION OF HUMAN-ANIMAL INTERACTION ORGANIZATIONS. IAHAIO international guidelines for minimum standards for education and training in animal-assisted interventions (AAI). 2022. IAHAIO — International Guidelines for Minimum Standards for Education and Training in AAI. Acesso em: 10 set. 2026. SANTANIELLO, Antonio; GARZILLO, Susanne; CRISTIANO, Serena; FIORETTI, Alessandro; MENNA, Lucia Francesca. The research of standardized protocols for dog involvement in animal-assisted therapy: a systematic review. Animals, Basel, v. 11, n. 9, art. 2576, 2021. DOI: 10.3390/ani11092576. Artigo em Animals. TREVATHAN-MINNIS, Melissa; JOHNSON, Amy; HOWIE, Ann R. Recommendations for transdisciplinary professional competencies and ethics for animal-assisted therapies and interventions. Veterinary Sciences, v. 8, n. 12, art. 303, 2021. DOI: 10.3390/vetsci8120303. Artigo em Veterinary Sciences. WINKLE, Melissa; JOHNSON, Amy; MILLS, Daniel. Dog welfare, well-being and behavior: considerations for selection, evaluation and suitability for animal-assisted therapy. Animals, Basel, v. 10, n. 11, art. 2188, 2020. DOI: 10.3390/ani10112188. Artigo em Animals.
Cinoterapia; formação profissional; experiência prática; formação em Cinoterapia; Serviços Assistidos por Cães; Serviços Assistidos por Animais; condutores de cães; binômio; qualificação profissional; docência

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